Estúdio de pilates e Coronavírus: Pesquisa científica comprova possibilidades para os estúdios voltarem a funcionar com segurança

As academias são comumente consideradas um dos lugares mais perigosos para a transmissão do novo coronavírus devido aos espaços fechados, muitas vezes mal ventilados, com alta possibilidade de contato com gotículas salivares e a grande quantidade de pessoas ao mesmo tempo no ambiente.

Foi essa premissa que levou o governo de diversos estados a determinar o fechamento de academias e outros espaços de prática de esportes por tempo indeterminado. 

Mas será que essa premissa está tão correta assim? A ciência mostrou que pode ser diferente!

Na última semana foi publicado um estudo da Coréia do Sul comprovando que a prática de alguns tipos de exercícios pode ser segura nas academias. Quer entender como? Continue no post para entender a pesquisa que levou a essa conclusão!

Coronavírus na Coreia do Sul

No final de abril, o país tinha mais de 10 mil casos de coronavírus, sendo a cidade de Daegu um dos principais focos do vírus. No dia 25 de fevereiro, o primeiro caso da cidade de Cheonan foi reportado, cidade que fica a 200km de distância de Daegu.

A questão a ser investigada foi: como o vírus chegou até lá e como se propagou?

A resposta foi encontrada em um workshop de dança fitness realizado na cidade, no dia 15 de fevereiro. As danças latinas se popularizaram na Coreia do Sul em função da sua alta intensidade aeróbica, o que motivou a realização desse workshop de 4 horas que reuniu 27 instrutores de dança.

Dos 27 instrutores de dança, 8 testaram positivo para o coronavírus. No momento do workshop nenhum deles sabia que estava infectado, já que estavam todos assintomáticos. A principal hipótese dos pesquisadores é que um instrutor de dança que participou do workshop e era da cidade de Daegu já havia contraído o vírus em sua cidadee transmitiu para os outros instrutores, sem saber que estava infectado.

Onda de contágio

Os 27 instrutores de dança continuaram trabalhando em suas academias por uma semana após o workshop, já que os 8 afetados ainda não sabiam da sua condição e tinham apenas sintomas leves como tosse. Porém, em 9 de março, esses 8 infectados se transformaram em 112 na cidade, sendo 82 sintomáticos e 30 assintomáticos, o que elevou o nível de preocupação.

Fez-se então um rastreamento de todos os professores da cidade que participaram do workshop e com quem eles tiveram contato, sendo alunos ou familiares. Também rastrearam os contatos terciários, ou seja, aqueles que tiveram contato com pessoas que tiveram contato com os instrutores. No final das contas, 830 pessoas foram expostas ao vírus, sendo 217 alunos que participaram das aulas com os instrutores.

Dos 217 alunos expostos ao vírus, 57 deles contraíram o coronavírus, tendo uma taxa de transmissão de 26,3% para esse grupo. Dos 112 casos confirmados, 38 eram de transmissão familiar de instrutores e estudantes e 17 casos foram de transmissão durante reuniões com colegas de trabalho ou conhecidos.

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Taxa de Contágio

As taxas de contágio foram diferentes para cada tipo de transmissão.

Contágio primário: 26,3% durante as aulas (57 alunos que participaram das aulas intensas). Considerando familiares, pessoas do ambiente de trabalho e outros que tiveram contato com os instrutores houve um aumento de mais 6 pessoas.

Contágio secundário: foram encontradas 830 pessoas que tiveram contato próximos de instrutores de fitness e alunos das aulas e 34 casos de COVID-19 foram identificados, resultando em uma taxa de contágio secundário de 4,10%.

Contágio terciário: 418 contatos próximos de 34 transmissões terciárias foram identificados antes da quarentena e 10 casos quaternários dos casos terciários foram confirmados, resultando em uma taxa de contágio terciário de 2,39%.

Você percebeu que a taxa de contágio vai caindo de um grupo para outro? O motivo é que não é somente o contato, mas as condições do ambiente e o nível de exposição que são responsáveis por uma maior taxa de contágio.

Ok, essa novidade não é tão grande, não é mesmo? Mas logo logo você vai entender por que os estúdios de pilates oferecem menor risco de transmissão do coronavírus – saiba que tem relação com a intensidade do exercício.

Perfil das pessoas que contraíram o vírus

O estudo traz uma tabela sobre as características clínicas no momento de isolamento ou entrada no hospital de 54 pessoas que contraíram o vírus a partir das aulas de dança, confira:

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Tabela 1. Características clínicas de 54 pessoas diagnosticadas com coronavírus que participaram das aulas de dança fitness na Coreia do Sul.

É interessante observar que todas as 54 pessoas eram mulheres, e apenas 10% apresentavam pré condições, que chamamos de fatores de risco: hipertensão, diabetes, entre outros. Além disso, o principal sintoma foi tosse, seguido pela presença de escarro e dor de garganta.

O valor de IMC encontrado está dentro da faixa de normalidade, indicando que a maior parte das mulheres não era obesa.

Forma de contágio

Observe a figura abaixo:

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Figura. Mapa de casos confirmados de doença por coronavírus (COVID-19) associados a aulas de dança fitness em Cheonan, Coréia do Sul, por data de início dos sintomas e relações. Instrutores fora de Cheonan estão excluídos. Em 7 casos, houve suspeita de transmissão na fase pré-sintomática e o período mais longo antes do início dos sintomas foi de 5 dias. Nenhum dos instrutores apresentou sintomas de COVID-19 no dia do workshop, mas os instrutores de Daegu, que recentemente tiveram um grande surto, desenvolveram sintomas três dias após o workshop. As instalações esportivas são representadas por barras à esquerda com o número de alunos por turma incluído. Contornos em negrito indicam um teste positivo para COVID-19 em uma pessoa na fase pré-sintomática.

Essa figura mostra o desenho experimental. Começa pelo dia 15 de fevereiro, data do workshop, no qual 27 instrutores participaram realizando as aulas de dança de maneira vigorosa por 4 horas. Desses, 8 instrutores contraíram o COVID-19 e 6 que eram da cidade de Cheonan participaram do estudo aqui ilustrados com quadrados vermelhos e identificados como: A, B, C, D, E e F.

A partir do dia 19 de fevereiro a figura apresenta o primeiro dia de sintomas, começando pelos instrutores A, B e F, que provavelmente contraíram a COVID-19 no workshop, e começaram a ministrar aulas nas academias. Depois os alunos, familiares, amigos de trabalho e outras pessoas próximas.

O workshop realizado durou 4 horas, o que significa que os instrutores treinaram de forma exaustiva nesse dia. Sabe-se que levar o organismo a esse nível de intensidade durante um longo período de tempo pode ter impacto na imunidade, deixando o organismo dos instrutores em questão mais suscetível a infecções.

Os instrutores A e B foram os que mais ministraram aulas após o workshop, como você pode ver na figura acima, o que justifica o fato de serem os dois instrutores que mais transmitiram o vírus posteriormente, conforme mostra a tabela 2 abaixo.

No dia 24 de fevereiro (identificado pela seta azul no gráfico 1 abaixo) o governo da Coréia elevou o nível de alerta do COVID-19 ao nível mais alto e solicitou cooperação para redução ou fechamento de instalações com maior aglomeração de pessoas como parte da política de distanciamento social e físico.

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Gráfico 1. Curva epidêmica de casos de coronavírus confirmada em laboratório em Cheonan, Coreia do Sul, por data de início dos sintomas e relacionamentos. A seta azul indica a data em que a Coreia do Sul elevou o nível de alerta do COVID-19 ao nível mais alto e solicitou cooperação para redução ou fechamento de instalações de aglomeração como parte da política de distanciamento social e físico.

Analisando os gráficos é possível verificar que o nível do transmissor e possivelmente a forma de contágio também define a força de transmissão do vírus pelo seu receptor. Repare, na primeira figura, que o instrutor C contraiu o vírus em dia diferente dos demais e também de forma diferente: através de outro instrutor, não através do workshop.

Os instrutores D e E demoraram mais para apresentar sintomas, apesar de estarem juntos no evento do dia 15 com os outros instrutores (A, B e F).

Os valores da tabela abaixo mostram que o nível de transmissão dos instrutores C, D e E foram menores, inclusive considerando que dois não transmitiram o vírus em aula. Os instrutores que contraíram no dia do workshop, onde treinaram de maneira muito intensa e provavelmente estiveram em exposição maior, também foram os maiores transmissores.

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Tabela 2. Taxa de transmissão de instrutores e instalações esportivas durante um surto de doença por coronavírus associado a aulas de dança fitness, Coréia do Sul, 2020.

Leia mais:

Quais eram as características das aulas que possibilitaram a transmissão?

Durante o workshop, os instrutores praticaram dança fitness de ritmo latino de alta intensidade durante 4 horas. Depois, ministraram aulas de dança duas vezes por semana, com 50 minutos de duração cada. As aulas de dança fitness são de alta intensidade aeróbica, o que faz com que os praticantes e professores hiperventilem, expelindo grande quantidade de gotículas salivares.

As danças latinas atingiram uma popularidade incrível, não é mesmo? Quem diria que um ritmo tão difundido na América do Sul e Central despertaria o interesse de tantos asiáticos!

As características que podem ter levado à transmissão dos instrutores incluem principalmente grandes turmas, salas pequenas e alta intensidade dos exercícios. Você sabe o quão intensa pode ser uma aula nesse estilo, com certeza. 

A atmosfera úmida e quente de uma academia aliada ao fluxo turbulento de ar gerado pelo exercício físico intenso pode causar uma transmissão mais densa de gotículas isoladas. As aulas nas quais os casos secundários de COVID-19 foram identificados incluíram de 5 a 22 alunos em uma sala de aproximadamente 60m2 durante 50 minutos de exercício intenso.

A única limitação do estudo foi a indisponibilidade de poder contatar todos que frequentaram os locais de contágio. Porém, com esses achados é possível obter uma amostra de como se comporta o contágio do vírus em ambiente de academia de acordo com a intensidade da aula e as condições do ambiente. 

Repare que esse estudo mostra o conjunto específico que apresenta maior risco de transmissão de coronavírus em academias. Mas será que existe outra forma segura de praticar exercícios?

De que forma a pesquisa mostra que algumas modalidades são seguras?

Chegamos à parte mais importante do estudo: Os instrutores B e C ministraram aulas no mesmo lugar, com as mesmas instalações e simultaneamente. O instrutor B ministrou aulas de dança em alta intensidade, e o instrutor C de pilates e yoga de baixa intensidade, para 7-8 pessoas. Somente os alunos da aula de dança do instrutor B contraíram o COVID-19.

Além disso, os pesquisadores não encontraram casos de coronavírus em aulas com menos de 5 pessoas enquanto avaliavam a transmissão secundária.

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O que esses dados querem dizer?

Os pesquisadores mostraram dessa forma que as aulas de pilates e yoga são mais seguras por serem atividades de baixo a médio impacto e os alunos não hiperventilam, o que diminui o efeito de transmissão em relação às outras aulas.

Mesmo estando na mesma sala que os alunos da aula de dança do instrutor B, os alunos do instrutor C não contraíram o coronavírus. Ou seja, se a aula de pilates e yoga foi ministrada no mesmo ambiente em que a aula de dança e não houve contágio para os praticantes, imagine em uma sala grande, ventilada, com até 5 pessoas praticando exclusivamente pilates e yoga?

Não esqueça de tomar os cuidados necessários

O estudo mostrou que mesmo em condições descuidadas os praticantes de pilates e yoga não contraíram o vírus. Dessa forma, sabemos que as condições ainda mais seguras incluem maior ventilação dos espaços, turmas reduzidas, frequente higienização das salas, distanciamento adequado entre um aluno e outro e utilização de máscaras.

Para aumentar a segurança na abertura das academias e estúdios, a Associação Brasileira de Academias criou um protocolo de medidas obrigatórias a serem adotadas na reabertura, confira:

  • Disponibilizar álcool em gel para clientes e colaboradores;
  • Higienizar todas as áreas da academia de 2 a 3 vezes por dia;
  • Disponibilizar kits de limpeza para os clientes higienizarem os equipamentos também (colchonetes, halteres e máquinas);
  • Obrigatoriedade do uso de máscaras por todos os colaboradores, inclusive terceirizados;
  • Limitar a ocupação da academia a 1 aluno a cada 6,25m²;
  • Delimitar com fita o espaço em que cada cliente deve se exercitar nas áreas de peso livre e nas salas de atividades coletivas, respeitando 1,5m de distância entre um e outro;
  • Intercalar a ocupação dos aparelhos de cardio, deixando o espaçamento de um equipamento sem uso para o outro;
  • Renovar todo o ar do ambiente pelo menos 7 vezes por hora e trocar os filtros do ar condicionado no mínimo 1 vez por mês.

Dessa forma, a academia e os estúdios serão seguros para qualquer prática de exercícios assim que puder reabrir.

Independente da modalidade de exercícios escolhida, a intensidade correta é o mais indicado para que não haja depressão do sistema imune. Por isso é recomendado o acompanhamento de um Personal Trainer ou outro profissional da área capacitado a avaliar a intensidade correta de execução.

Além disso, é interessante se atentar ao fato de que o risco de transmissão do coronavírus em academias depende principalmente da intensidade do exercício, da modalidade do mesmo, do espaço e ventilação do local e da fase de sintomas que os possíveis portadores podem estar.

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O risco realmente existe nas seguintes situações, estejam elas acontecendo ao mesmo tempo ou de forma isolada:

  • Salas pequenas;
  • Grande quantidade de alunos;
  • Proximidade muito grande entre um aluno e outro;
  • Ambientes mal ventilados;
  • Modalidades de exercício mais intensas;
  • Falta de proteção individual, como máscaras.

Agora você tem uma comprovação científica de que a prática de atividades de baixa intensidade como pilates e yoga são seguras quanto a transmissão do coronavírus, principalmente quando adotadas medidas de prevenção e distanciamento.

Gostou de saber dessa novidade? Então compartilha esse post com aquele seu amigo que está ansioso para voltar para o estúdio!

Fonte: Ji-Young Rhee, Division of Infectious Diseases, Department of Medicine, Dankook University Hospital, Dankook University College of Medicine, 201 Manghang-ro, Dongnam-ku, Chungcheongnam-do, South Korea. Disponível em: https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/8/20-0633_article .

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